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A EXPERIÊNCIA NATURAL

Por Carlos Martinho de Freitas

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Nosso casamento já havia acabado. Assim eu pensava e assim Álvaro confirmava.

 

Vinte e dois anos de relacionamento, dois filhos bem-criados, um patrimônio razoável e um tédio acumulado, pelo menos nos cinco últimos anos.

   

Grandes dificuldades financeiras, nunca tivemos. Nos casamos logo depois que nos formamos, Álvaro em arquitetura e eu em fisioterapia. Por influência das famílias logo nos colocamos no mercado de trabalho. Daí para frente foi tudo questão de planejamento. E foi tudo bem planejado: o primeiro carro, o apartamento, os filhos, a casa de campo e tudo mais.

   

Álvaro e eu éramos um casal feliz, o casal perfeito. Era assim que todos nos viam e era assim também que acreditávamos ser.

Éramos o tipo de casal que não podia faltar em nenhuma reunião de amigos, passeios, festas e muito menos nos encontros familiares. A nossa aparente estabilidade dava um certo conforto e segurança às pessoas à nossa volta.

   

Tudo isso aumentava ainda mais a nossa responsabilidade. Tínhamos que manter a aparência de casal perfeito e corresponder sempre à expectativa das pessoas. Álvaro e eu sabíamos muito bem fazer isso e sabíamos também da nossa angustia.

   

O tempo passou e a angústia virou tédio. Continuávamos a manter a nossa vida social como sempre. Mas os nossos dias, as nossas horas como casal eram frios e desinteressantes. Álvaro chegou a afirmar algumas vezes que a nossa relação agora era uma relação de irmãos e que achava que todo casal era assim depois de um longo tempo de convivência. Era uma mentira, éramos inteligentes o mínimo para não acreditar nisso. E isso nos levava ao insuportável, saber que a situação era insustentável e não sabermos dar uma solução ou mesmo dar fim naquilo tudo.

   

Álvaro começou a sair quase todas as noites, sozinho. Tentei acreditar que existia uma outra mulher, talvez aí tudo se entenderia. Bastaria uma briga e se resolveria o nosso caso. Mas a mulher nunca aparecia e a briga não vinha, nem mesmo um grito, um desaforo que fosse, nada. Éramos bem-comportados demais para tanto, ponderávamos demais.

 

Não falávamos a ninguém do nosso drama. Muito menos aos nossos filhos. Íamos ruminando o nosso dia a dia como se nada pudesse ser feito. Tentei numa oportunidade de me desabafar com uma amiga em comum. Mas ela não levou a sério, foi logo dizendo que não passava de uma má fase e que logo tudo se resolveria.

   

A insatisfação chegou ao limite. Era preciso uma solução amigável, antes que começássemos a nos magoar. Naquela altura já não éramos mais tão freqüentes nos programas sociais. Os amigos começaram a reclamar.

   

Houve, porém, um desses programas que resolvemos confirmar a nossa presença. Uma Excursão pelo litoral, final do mês de março, depois do carnaval, fim de verão. Doze casais estavam confirmados. Alugaríamos um ônibus com todo conforto e segurança, sem preocupação com carro, filhos ou empregados.

A excursão estava marcada, bem organizada e estruturada. Ninguém queria aborrecimentos. Sairíamos na penúltima sexta feira do mês de março e retornaríamos na primeira semana de abril. Quinze dias duraria a nossa expedição.

   

Álvaro e eu nos preparamos sem muito entusiasmo, mas talvez estivéssemos precisando daquele lazer naquele momento. No domingo anterior à viagem, à noite, estávamos a sós em casa. Preparei alguma coisa para comermos. Comíamos calados, distantes, sem nos entreolharmos. Foi quando Álvaro levantou os olhos e desabafou: Não dá mais. Não deixei que ele falasse muito, eu entendi e concordei de imediato. Depois da viagem anunciaríamos a separação, ou seja lá o que fosse.

   

Fui dormir naquela noite sem me dar conta do que realmente estava sentindo. Estava confusa, cansada e não estava interessada em definir nada. No dia seguinte a situação não

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mudou muito para mim, mas Álvaro amanheceu alegre, cantarolando, e o resto da semana parecia leve, despreocupado, com uma intensa sensação de alívio.

   

Miserável! Se precisava tanto dessa solução, por que não o fez antes, por que deixou que o tédio fosse ao limite que foi? Pensei em desistir da viagem e confessar tudo naquela semana mesmo. Mas mais uma vez ponderei e decidi aceitar o combinado.

   

Chegou o dia da viagem. Tudo estava conforme planejado, doze casais, ônibus de luxo, serviço de bordo, conforto, segurança e um roteiro de fazer inveja. Viajaríamos pelo litoral, nos hospedando em pousadas e hotéis estratégicos, comendo em restaurantes típicos, visitando praias e lugares exóticos.

   

A viagem começou sem atraso, todos estavam alegres e ansiosos. Álvaro estava muito animado, brincalhão, piadista e quase sempre de copo na mão. Eu tentava manter as aparências, embora já começasse a contar as horas para o fim daquela agonia.

   

Sobrevivi à primeira semana. Embora sem muito interesse, cumpria com os outros a penosa agenda de passeios e festas. Álvaro, ao contrário, era o centro das atenções, cada vez mais solto e seguro si; parecia estar degustando cada minuto da famigerada excursão. O que fazia a minha angustia chegar ao extremo.

   

Num sábado à noite, o segundo daquela viagem, resolvemos não sair. Haveria uma festa na pousada onde estávamos hospedados, ficaríamos por ali mesmo. No dia seguinte, domingo, o roteiro incluiria uma visita a uma praia de nudismo ou naturista, como queiram.

   

Amanheceu um dia muito bonito naquele domingo, o céu estava azul e a temperatura agradável. Tomamos o nosso café sem pressa nenhuma e nos disponibilizamos para a programação do dia. Eu fiz a minha triste contagem: faltavam cinco dias para o término excursão, findaria o meu suplício.

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Depois de alguns outros programas, chegamos a tal praia naturista, lá pelas duas horas da tarde. Descemos todos do ônibus e fomos até a entrada da praia. Um homem explicava as regras do lugar, era preciso se ficar nu no local. As pessoas do nosso grupo olhavam sem muito interesse, uns riam, outros achavam ridículo e alguns até admiravam a coragem dos naturistas. Mas ninguém se interessou em entrar na tal praia. Não nos demoramos por ali, resolvemos entrar novamente no ônibus e ir para outro lugar e nos movimentamos. Mas Álvaro surpreendeu a todos, inclusive a mim: “eu vou ficar”, disse ele, “encontro vocês no hotel”. E sem mais rumou para a praia sozinho.

 

Voltamos ao ônibus. As pessoas estranharam a atitude de Álvaro, mas concordaram que era mesmo a índole dele. Eu fiquei mortificada, me senti traída, desrespeitada e um

sentimento estranho se extravasou e eu não podia mais me conter. Alguma coisa terrível aconteceria se chegasse daquela forma ao hotel. O ônibus começou a andar, mas nem bem havia rodado cem metros, eu pedi gritando ao motorista que parasse. Eu já não me controlava mais. As pessoas se assustaram, perguntaram o que estava se passando. Eu, sem poder esconder o desespero, respondi que estava tudo bem e que me encontraria com Álvaro.

   

Desci correndo em direção à praia, na entrada tentaram me explicar as regras, eu disse que já conhecia. Entrei logo na praia e a alguma distância da entrada me despi apressadamente e corri em direção ao mar, como se fosse para a morte. Mergulhei na água e num pranto profundamente doloroso, mergulhava e chorava compulsivamente. O peito doía, a cabeça doía, a alma doía.

   

Enfim o pranto cessou. Exausta, deixei o corpo boiar suave nas ondas, como se me entregasse ao mar. Já refeita, com o peito aliviado, olhei para a praia. Não havia muitas pessoas naquele dia e para minha surpresa ninguém havia percebido o meu desespero. Saí da água e fui em direção a uma barraca, onde quatro rapazes conversavam. Quando cheguei, eles, respeitosamente, pararam de conversar e um deles veio me dar atenção. Pedi uma água de coco. O rapaz me atendeu prontamente e me ofereceu uma espreguiçadeira que havia por ali. Me recostei e comecei a saborear a água de coco. Só então comecei a perceber como era bonito o lugar. O céu estava azul, o mar estava límpido, o vento era agradável e o rapaz que me atendeu era muito bonito. Uma sensação de prazer me chegou como há muito tempo não sentia.

Fui novamente para água. Agora nadava calmamente, mergulhava profundo, sentindo prazerosamente a água me acariciar. Me lembrei da minha adolescência, do quanto eu adorava nadar. Voltei à espreguiçadeira. Uma vontade enorme de prolongar aquele prazer me assaltou. Pedi ao rapaz que me preparasse um drinque e ele mais uma vez, amavelmente, me atendeu. Comecei a beber e a olhar deliciosamente para todos os cantos da praia, era tudo muito bonito e agradável. Foi quando percebi que a uns cinqüenta metros dali um homem me observava. Era Álvaro.

   Não olhei mais para os lados dele, fui novamente para a água. Me demorei o quanto pude, até me cansar. Olhei para areia e vi Álvaro postado ao lado da espreguiçadeira. Saí da água e fui até lá, sem olhar para ele. Álvaro me cumprimentou meio sem jeito, como se não me visse há muito tempo. Ficou ali parado sem dizer nada e logo em seguida disparou a falar coisas sobre

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nudismo como se fosse grande entendedor do assunto. Falava dos gregos antigos, dos nossos índios, de clubes e praias naturistas da Europa; falava atropelando as palavras, engasgando, como um adolescente confuso tentando impressionar. Eu ouvia tudo, curiosa e surpreendida. Aquele era mesmo Álvaro? Ele falava e eu ouvia, falava eu ouvia. Depois de todas as idéias naturistas explanadas, Álvaro parou e me convidou a ir até a água com ele. Fomos, mergulhávamos e brincávamos sem dizer uma só palavra. Álvaro quebrou o silêncio e me convidou a caminhar pela praia com ele. Álvaro agora me mostrava e dissertava sobre a natureza do lugar. Falava, apontava, gesticulava naquele paraíso incrustado entre a montanha e o mar. Eu já não ouvia mais, observava apenas. Álvaro ainda tinha um corpo bonito de homem maduro. Enquanto ele se expressava eu me perguntava: onde

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estava aquele corpo, aquela voz, aqueles olhos?  E onde estava eu? Álvaro parou de falar de repente, senti que ele me observava. Continuei olhando para frente, mas num certo instante o encarei, ele tinha os olhos molhados. Não o olhei mais, caminhamos um pouco mais em silêncio, até que Álvaro nos lembrou que estava ficando tarde e que deveríamos retornar ao hotel, mas sugeriu que antes fôssemos a um pequeno restaurante que ficava nas imediações. Aceitei de bom grado.

   

Pegamos nossas roupas, mas fomos caminhando nus até a saída da praia. Uma leve brisa soprava, as mãos desocupadas balançavam, de vez em quando as pontas dos dedos mínimos se esbarravam e um desejo pueril se exalava.

   

Faltavam ainda cinco dias para o final da excursão. Que bom meu Deus!

(enviado em 1/04/24 via WhatsApp)

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