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Img: F. Young

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"Papo reto" com Paulo Pereira

No dia 21 de julho passado, por telefone, e dias antes por e-mail Paulo Pereira concedeu entrevista a mim, Pedro Ribeiro, editor desse veículo há 22 anos. Em bate-papo franco, descontraído e esclarecedor, Paulo contou um póuco mais sobre sua trajetória como Naturista notório do Naturismo nacional. Sua experiência é uma aula de perseverança e de objetivo, verdadeiro profundo ensinamento do que é ser naturista.

Paulo Pereira, índio branco intelectivo, revisita o Grumari/ Abricó, 2009, foto de Young, revista "Trip", reportagem afirmada sobre o Naturismo do Brasil.

Por Pedro Ribeiro

Paulo Pereira é notório naturista brasileiro. Muito conhecido por seus artigos publicados desde as primeiras edições do jornal OLHO NU, há vinte e dois anos e também pelos diversos livros e ensaios publicados no antigo e tão necessário formato livro, o qual está, cada vez mais em desuso graças a novas tecnologias que levam os leitores preferirem textos curtos e, na grande parte, sem uma aprofundada base de referência. Porém Paulo Pereira é muito mais. Além de ser o principal pesquisador e historiador do Naturismo brasileiro de todos os tempos, ele também ajudou profundamente a construí-lo com uma história pungente e de pioneirismo. Contemporâneo de Luz Del Fuego, o principal ícone do Naturismo no Brasil, de quem foi amigo, ele ajudou a dar  continuidade à história, não permitindo que nossa filosofia se desvanecesse com a morte de Luz e com os seguintes “Anos de Chumbo”.

Paulo possui uma história fascinante dentro do Naturismo, a qual é pouco conhecida. Nos vinte e dois anos do jornal não poderia faltar a presença do maior articulista de nosso meio de comunicação. Em alguns de seus livros há grande parte desta história contada detalhadamente, mas nada melhor do que ouvir de sua própria boca sua saga e aventuras.  No passado ele já havia dado uma entrevista para o jornal, mas nunca é demais ouvir, ouvir e ouvir suas histórias e experiência de vida, ensinamentos que jamais poderão ser olvidados.

 

Sua motivação e atuação naturistas são vivências realmente inegociáveis. Fica em foco, de passagem, o seu jeito de ser, percep-

Img: Arquivo pessoal

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Luz del Fuego . Foto enviada ao "Alemãozinho",- como Luz tratava carinhosamente Paulo Perteira- publicada no livro "Naturalmente, Um Perfil Documentado", 2011, página 68. 

ção que tentou deixar mais clara nas primeiras páginas do livro “Sem Pedir Julgamentos, Conforme a Natureza”, 2011, Editora Livre Expressão:

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Img: reprodução

Capa do livro "Aventuras de Hans Staden", Monteiro Lobato, 194. Texto de referência: os índios, a natureza, o naturismo.

“- Nasci nu, livre, numa primavera distante. Menino, vivi o encanto das borboletas coloridas, pétalas em movimento, e das formigas incansáveis, organizadas. Li Hans Staden. Apaixonei-me pelos índios, pela natureza toda nua. E tornei-me, fascinado, discípulo de Cunhambebe e de Aimberê, Tupinambás. Conheci Luz del Fuego, a Musa de Paquetá. Sem pudores, ou pecados, percebi a vida sem amarras. Biólogo, tento entender o que as matas e riachos murmuram... A grande pantera negra, esquiva, mostrou-me todos os caminhos. Homem-felino, mulher-leopardo... Brisa solta, nas sombras da madrugada consigo arestas, nesgas, e conheço os contornos, recantos recônditos. Mas as intimidades só ofereço a quem pode conhecer todos os meus nomes, além de Paulo... E que não haja, afinal, qualquer engano: sou água de cachoeira, impudica, liberta, e ninguém pode me amarrar...”

O Paulo Naturista é, define-se ele, “sobretudo, o índio branco, o Tupinambá tardio, quem sabe, o alfarrabista medieval transmutado a romper o mato virgem nas patas do jaguaretê indomável... Há sempre mais perguntas do que respostas, como bem observou, transcendente, Madre Teresa de Calcutá; se há Deus, que ele me perdoe...”

O Paulo Naturista vem de longe e tem, sobretudo, boas histórias para contar e uma vivência abençoada pelo tempo, pelo estudo sério, pela liturgia da integração homem-natureza, uma construção árdua por mais de oito décadas, teoria e prática, referência qualificada, experiência assídua, paciência e tolerância exercitadas.

Paulo cita o que Rose Marie Muraro escreveu: “a nudez é uma forma de adaptação à vida!...” Não há, e nunca houve, naturismo sem nudismo, afirma, conforme os fundamentos histórico-filosóficos consagrados do Movimento, desde suas origens no início do século XX, na Alemanha.

 

Eu, na apresentação de seu livro “Naturalmente, Um Perfil Documentado” afirmei e reafirmo agora, sem nenhuma generosidade:

“Sua família é o retrato prático do que é viver sob os preceitos de uma filosofia, a naturista, que prega o respeito acima de tudo. Quanto mais o conhecia, mais fascinado por sua história eu ficava. Paulo representa o naturismo do passado e do presente. Seus conhecimentos profundos sobre os meandros de nossa doutrina, embasados em sua experiência pessoal rica e única de vivência, e convivência, como o principal ícone do Naturismo Brasileiro, Luz del Fuego, e por seus estudos vigorosos e consistentes, provavelmente influenciados por sua formação acadêmica como biólogo, e pela prática do jornalismo, correspondente que foi de diversas publicações internacionais, tem sido muito importantes”...

Paulo, já octogenário, percebe a impermanência de tudo, a vida como metamorfose cíclica, e se faz, na prática, um peregrino nu, um buscador sem vestes, um andarilho do tempo, um velho “Ara Watasara”, como percebe o erudito e nobre amigo Jorge Bandeira, irmão-índio amazônico...

 

Paulo recorda que, em 1960, Daniel de Brito, pioneiro, fundador juntamente com Osmar Paranhos, do Clube do Sol, de Luz del Fuego, cria, em Brasília, a FNIB, Fraternidade Naturista Internacional do Brasil, que, por iniciativa dele (Paulo) passa a ser a A.N.B. – Associação Naturista Brasileira, registrada oficialmente na INF – International Naturist Federation. Em 1960, Luz del Fuego estava viva, atuante, reconhecida internacionalmente, e a prática nudista-naturista estava também viva, concreta, reafirmada.

No final de 1963 e início de 1964, conhece pessoalmente duas praias que se tornariam ícones naturistas: a Prainha e o Grumari, na zona oeste do Rio de Janeiro. A vocação evidente e o pioneirismo histórico do Rio de Janeiro, como centro nudista-naturista. Em 1963-64, não havia acesso aberto para a Prainha. Então, Paulo iniciou as visitas à Prainha por terra, a pé, uma caminhada de, pelo menos, uma hora no mato, sem licença ou documentos, uma aventura naturalista-naturista, que é recordada com alegria e saudade! O acesso ao Grumari se fazia de carro pela antiga Estrada da Grota Funda, no rumo de Pedra de Guaratiba. Nessa ocasião, fez as assinaturas das revistas “Freies Leben” e “Sun and Health”, europeias. E, após correspondências como leitor com as revistas, o editor alemão colocou-o em contato com simpatizantes do Movimento no Brasil. Em setembro de 1964, a convite do editor alemão, tornou-se correspondente como jornalista, para o Brasil e América do Sul, da revista “Freies Leben”, tendo, então, o editor solicitado a ele a realização de uma reportagem, de

Img: Arquivo pesssoal de Paulo Pereira

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Luz de Fuego, Ilha do Sol, 1966. Foto de Paulo Pereira para "Freies Leben", nº 127, Sudamerika - Matéria histórica, internacional, publicada durante a vigência do Regime Militar a partir de 1964

matéria especial, texto e fotos, com Luz del Fuego, na Ilha do Sol, conforme documento reproduzido na página nº 70 de seu livro “Naturalmente”, 2008. A matéria foi publicada por “Freies Leben” em 1966, em seu número 127, sob o título de “Sudamerika”, em alemão, e uma das fotos por ele enviadas está reproduzida à página 119 de seu livro “Sem Pedir Julgamentos”, 2011. Um exemplar de “Freies Leben”, contendo a sua reportagem, artigos e fotos, infelizmente desapareceu dos arquivos do CENA, Centro de Estudos Naturistas, criado e dirigido por Edson Medeiros. “Coisas do Brasil”,  lamenta.

Img: Reprodução

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Capa da Revista "Sun and Health", 1966, onde foi publicada a matéria "Brazilian Naturism" - reproduzida abaixo. Atividade nudista-naturista pioneira na Prainha (In Pearl Beach). Isso é História!

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A A.N.B. foi encerrada por Paulo em 1979, por falta absoluta de condições de continuidade por terem seus líderes morrido ou se afastado por razões pessoais. Ele ficou sozinho e não viu

Paulo, a partir de abril-maio de 1964, resolve criar um grupo naturista, para a prática nudista-naturista organizada, que recebeu o nome de “Comandos Naturistas”, quase sempre reunindo pequenos grupos de 10 ou 12 pessoas em diversos locais. A propósito, ele escreveu, pelo menos, dois artigos focalizando a atuação dos “Comandos Naturistas”, que podem ser consultados nos arquivos do Jornal Olho Nu, matérias já publicadas.

Igualmente, o editor da revista “Sun and Health”, da Dinamarca, edição internacional, o ilustre Erik Holm, vice-presidente da INF, convidou-o para correspondente oficial da revista em janeiro de 1966, conforme documento reproduzido, à página 61, do seu livro “Naturalmente”, 2008. “Isso é História!” – orgulha-se. Em 1966, antes da morte trágica de Luz del Fuego, uma das matérias feitas por ele, para o editor Erik Holm, foi publicada por “Sun and Health”, sob o título de “Brazilian Naturism, In Pearl Beach”, focalizando atividade pioneira dos “Comandos Naturistas” na Prainha (Pearl Beach na tradução que foi dada na edição da revista), praia vizinha do Grumari, muito antes da abertura da estrada asfaltada, e posterior transformação da Prainha em APA – Área de Proteção Ambiental.

A INF, em sua publicação chamada de “Holiday Centres”, 1972, registra a A.N.B. – Associação Naturista Brasileira(1), da qual foi fundador e diretor. Em 1972, igualmente, a A.N.B. foi representada oficialmente no Congresso Internacional realizado em Koversada, antiga Iugoslávia, por Daniel de Brito e Hans Frillman. (1) Na página nº 72 do seu livro “Naturalmente”, está publicada a comunicação oficial da INF relativa à A.N.B., registro datado de abril de 1969.

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Comunicado Oficial da INF - International Naturist Federation, abril de 1969, com registro da A.N.B. - Associação Naturista Brasileira, pioneira. O Naturismo Brasileiro não é fruto do acaso...

outra solução. A prática naturista continuou aqui no Rio de Janeiro principalmente na praia e floresta da Reserva da Barra da Tijuca, local de acesso restrito e desconhecido da maioria da população em pleno “Anos de Chumbo”. Devido à repressão cultural e política não havia informações de áreas naturistas organizadas no Brasil, em praias nem em clubes. As visitas nudistas eram alternadas entre a praia da Reserva e a praia do Abricó, em Grumari, onde ia com sua esposa Ivete. Na Prainha já não era mais possível praticar nudismo por causa da abertura da estrada a partir do Recreio.

Img: rio.temporadacopacabana.com.br

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A Prainha, cujo nome foi traduzido para o inglês como Pearl Beach, foi um dos locais pioneiros da prática naturista no Rio de Janeiro

Retornando ao assunto da descoberta da Prainha e de Grumari, Paulo tem uma palavra muito especial sobre a região de Grumari e a Praia do Abricó, que foi visitada desde 1964, uma experiência muito rica, como naturista e biólogo. Ele tinha plena convicção de que vivia um tempo precioso, que estava próximo de se esgotar, ou modificar essencialmente, sobretudo, pelo avanço rápido da presença humana, das ações inadequadas da maioria dos visitantes num futuro que já se fazia quase presente. Depois da morte prematura de Luz del Fuego, em 1967, suas visitas a Grumari foram intensificadas, inclusive com os amigos dos Comandos Naturistas, tendo a oportunidade histórica de ter participado da série de artigos da revista “Jóia”, intitulada “Esta Geração Nua”, 1968, e com a publicação pela revista de sua icônica carta sobre as atividades nudistas-naturistas no Brasil, sobretudo.

 

A região do Grumari/Abricó foi, de longa data, o seu principal sítio de atuação, repete, como biólogo e naturista, a Natureza-Mãe em primeiro plano. Ele inspira-se no legado nobre dos povos indígenas, dos povos originários Tupinambá e Kayapó, reafirma, conhecedores dos segredos das matas virgens, das falas das águas bravias do Pontal, da Prainha e do Grumari, águas de sonho e fúria, como disse Antônio Torres em “Meu Querido Canibal”, obra que Paulo, confessa, não se cansa de reler, fascinado, consciente... Ele já conversou calmamente com um pajé e com um grande tuxaua, e procura viver como a Natureza quer; não se fantasia de índio nem tem medo da nudez, traje de nascença; rejeita a algazarra dos deslumbrados, que insulta os ouvidos da Natureza, e reafirma que o Naturismo se faz maior quando faz parte da integração homem-natureza, sempre sem qualquer faz-de-conta, sem ideologias sectárias, sem falsos pudores. Paulo não considera os falsos sabidos, os protagonistas do nada, e segue as falas das matas, os conselhos de Aimberê, e do Tuxaua-Mestre, as vozes dos ventos selvagens... aprendeu um pouquinho o valor da simplicidade, de sonhar acordado objetivamente, como nos ensinou o extraordinário Lawrence da Arábia...

Img: Arquivo JON

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Capa da primeira revista Manchete que tratou sobre o Nudismo na praia do Pinho.

O evento da publicação da matéria do jornalista Tarlis Batista, na revista MANCHETE em 1984 sobre a Praia do Pinho, descoberta pelo repórter como de freqüência nudista, de grande repercussão nacional, Paulo se sentiu feliz por saber que haviam outros núcleos de resistência pelo Brasil.

 

Na praia do Abricó conheci Paulo Pereira, na segunda metade da década de 80, surgindo grande amizade e eu passei a conhecer o termo Naturismo e entender a filosofia de vida. Embora praticássemos o nudismo, lá não era permitido, como em nenhuma outra praia do Brasil. Com a praia do Pinho estando cada vez mais sendo divulgada e se organizando pelas mãos audaciosas de Celso Rossi, veio a inspiração de tentar oficializar a praia do Abricó como Naturista também.

 

No início dos anos 90, Paulo foi apresentado ao coronel do exército Sérgio de Oliveira, naturista que havia fundado e presidia no Rio de Janeiro a Rio-NAT, associação naturista que se reunia mensalmente em locais alugados e depois em sedes próprias. Sérgio o convidou para fazer parte da associação. Convite aceito, logo ele já estava fazendo parte da Diretoria e alcançou o cargo de presidente já no final de 1994.

Img: reprodução da TV

Naquele momento a praia do Abricó ganhou, após muita luta política, uma Resolução Municipal permitindo oficialmente a prática do naturismo nas suas areias, mas uma semana depois uma Liminar judicial da Vara de Fazenda Pública suspendeu esse direito causando grande repercussão nos meios de comunicação nacionais e internacionais. Por causa disso, como único representante oficial do Naturismo na cidade do Rio de Janeiro, Paulo foi convidado para participar do programa “Sem Censura” da antiga TVE, programa de muito prestígio na época, exatamente para falar sobre a proibição do Naturismo numa arena de debates composta por notáveis da mídia da época.

 

Paulo não considerou a experiência exatamente boa, pois achou que havia muita desinformação e preconceito nos debatedores. Mesmo assim o programa teve grande repercussão positiva e serviu para desmistificar um pouco a ideia do Naturismo para a população em geral.

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Paulo Pereira representou o Naturismo no programa Sem Censura, em 1994, sendo inquirido sobre o Naturismo e a praia do Abricó, recém liberada para o Naturismo e em seguida, proibida.

Paulo teve uma passagem curta na presidência da Rio-NAT, deixando o cargo no início do ano de 1995. Desde então, entre participações presenciais em encontros de novos grupos que iam surgindo, tem se dedicado à pesquisa e edição de livros sobre a história do Naturismo e também de outros assuntos que lhes são caros.

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Img: Pedro Ribeiro/arquivo JON

Paulo Pereira teve participação marcante durante o X CongreNAT realizado na praia do Abricó em 2006

Em 2006, quando da realização do X Congresso Brasileiro de Naturismo, o CongreNAT, ocorrido na Praia do Abricó, enfim liberada novamente para a prática naturista, Paulo Pereira teve grande participação com palestras, debates e entrevistas. Em edições anteriores e também posteriores Paulo também participou, senão em pessoa, mas sendo representado por suas ideias e certezas em textos especialmente compostos para as ocasiões que eram lidos por seus amigos aos quais delegava a função e ouvidos atentamente pelas plateias naturistas.

Em 2013 Paulo foi nomeado membro permanente do Conselho Consultivo da Federação Brasileira de Naturismo, órgão composto por ex-presidentes da entidade e por notáveis da saga naturista brasileira.

Hoje Paulo está com sua mente mais ativa do que nunca, escrevendo muito, pesquisando, estudando, elaborando novas obras. Uma energia que não se apaga, mesmo não tendo mais as condições físicas ideais para participar presencialmente dos eventos, mas está sempre presente por seu legado e ensinamentos.

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(enviado em 01/08/22 por Pedro Ribeiro)

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